Fandoms e Hatedoms
A Jogada
Em um mundo de identidades complexas e fragmentadas, comunidades construídas em torno de emoções compartilhadas tornaram-se mais relevantes — oferecendo conexão, histórias em comum, participação ativa e um senso de pertencimento.
Um fandom é uma comunidade movida por uma paixão compartilhada; um hatedom se forma em torno de uma aversão compartilhada. Tomado emprestado da cultura pop, esse modelo pode ser uma tática política poderosa — ajudando a construir vínculos mais profundos e emocionalmente carregados com sua base.
Um fandom político se concentra na autenticidade e na humanidade de uma liderança — destacando histórias pessoais, lutas e momentos informais que refletem valores centrais. Um hatedom, em contraste, une as pessoas por meio de uma oposição compartilhada, transformando a crítica em um motor de ação coletiva.
Sejam construídos por você ou em parceria com outros, fandoms e hatedoms trazem intensidade, alcance e autenticidade — potencializando o impulso emocional do seu movimento.
Por que funciona
- A emoção impulsiona a mobilização. Sentimentos fortes — positivos ou negativos — levam as pessoas a agir, e não apenas a observar passivamente.
- Comunidades criam impulso. Fandoms e hatedoms ativos geram ondas de engajamento que ampliam o alcance político.
- A paixão se espalha pelas redes. Quando as pessoas se importam profundamente, elas compartilham, recrutam e atraem outras para a causa.
- A diversão alimenta a energia. Humor e sátira fazem o engajamento político parecer dinâmico, social e contagiante.
Como funciona
1. Mapeie, analise, aprenda
Identifique-os e descubra o que têm em comum. Estude suas táticas, conteúdos e como engajam. Esse tipo de mapeamento ajuda você a identificar com quais fandoms pode se conectar — e mostra como construir o seu próprio.
2. Entenda as chaves para fazer um fandom (ou hatedom) funcionar
Quando você estiver familiarizado com outros fandoms ativos, será capaz de interpretar e operar as chaves mais comuns para lançar um fandom político (ou hatedom).
Humanidade e autenticidade
Construir um fandom político envolve destacar aspectos genuínos de uma liderança e enfatizar seu sistema de valores expresso, geralmente por meio de temas de estilo de vida com uma boa dose de registros informais do dia a dia. Um fandom político não é um espaço para o discurso político tradicional, mas sim para histórias pessoais, desafios superados e sucessos individuais que possam ser compartilhados.
Narrativa emocional
Um fandom político faz uso de uma narrativa emocional. Seu objetivo não é informar — é conectar. Fandoms não são espaços para discutir propostas de políticas públicas ou divulgar discursos de palanque, mas para compartilhar aspectos da vida pessoal que possam ser conectados, como metáforas, a mensagens políticas.
Diversão, memes e informações de bastidores
Fandoms alimentam seus fãs com conteúdos interessantes sobre ídolos, memes engraçados, novidades quentes e atualizações de bastidores. Oferecer material único e envolvente mantém o fandom vivo e faz os fãs voltarem para mais.
Participação ativa
Fandoms prosperam com seguidores ativos e um forte senso de pertencimento. Estimule a participação com missões ou atividades simples. Crie espaço para que os membros contribuam — seja produzindo conteúdo, participando de eventos ou simplesmente marcando presença.
Respeito
Respeitar opiniões diferentes é fundamental para construir confiança e conexão real. Estabeleça regras simples que protejam a liberdade de expressão, ao mesmo tempo em que garantam que todos sejam tratados com respeito.
3. Construa seu próprio fandom (ou hatedom)
Você já tem os ingredientes — agora construa seu fandom. Use esta orientação. Mantenha-se ativo nas redes sociais e publique com consistência. Acione suas redes, parceiros, influenciadores e cobertura da mídia para espalhar a mensagem e impulsionar seu lançamento.
4. Continue analisando, continue melhorando
Acompanhe de perto seu fandom (ou hatedom). Monitore o que está funcionando — e o que não está — acompanhando engajamento, feedback e o sentimento da comunidade. Essa análise contínua ajuda você a identificar táticas vencedoras e áreas a melhorar.
Adaptabilidade é fundamental. Quando você permanece atento aos interesses e necessidades em mudança dos seus seguidores, consegue ajustar sua estratégia e manter seu fandom político ativo, relevante e em crescimento.
Dicas
A. Direcione seguidores para grupos de WhatsApp
Para promover conexões mais íntimas, você também pode direcionar fãs (ou haters) para um sistema de grupos de WhatsApp (ou o serviço de mensagens mais comum no seu país) a fim de manter interações diárias com eles. Oferecer espaços mais privados em aplicativos de mensagens permite que as pessoas se abram mais, e interagir em um ambiente controlado e cada vez mais familiar fortalece os vínculos entre elas. Esses grupos se tornarão sua base mais engajada, e esses seguidores leais certamente ampliarão o alcance de suas mensagens políticas em momentos-chave de uma campanha.
B. Seja sábio e cuidadoso ao usar o medo
Um hatedom inevitavelmente envolve conteúdo que instala um senso de apreensão em relação ao caos, ao desastre e à irresponsabilidade de seus oponentes políticos autoritários. No entanto, é crucial introduzir e consolidar medos tangíveis e factuais. Um erro comum é recorrer a medos abstratos — como 'ruptura', 'ditador' ou 'fascismo' — que raramente mobilizam de forma eficaz. Se o conteúdo for excessivamente carregado de medo, isso prejudicará sua credibilidade e terá efeito contrário, simplesmente afastando as pessoas. A chave para um hatedom bem-sucedido é encontrar o equilíbrio certo no fator medo, combinando-o com conteúdo divertido e envolvente. Muitas vezes, é melhor ridicularizar líderes autoritários do que apresentá-los como figuras poderosas.
Quem o fez bem?
Brasil: Lulaverso e Bolsoflix
Organizando fãs e haters
Lulaverso — um fandom de Lula — surgiu no Brasil para mobilizar eleitores que admiravam Lula, mas ainda não eram politicamente ativos. Sua campanha percebeu a necessidade de ir além dos apoiadores tradicionais do Partido dos Trabalhadores (PT) e engajar as pessoas em um nível mais profundo e emocional. Isso significava criar uma nova marca e uma nova linguagem visual para alcançá-las.
Lulaverso evitou deliberadamente o conteúdo político tradicional sobre Lula e o cenário político brasileiro. Em vez disso, entrou em espaços mais relacionáveis, como fofoca e entretenimento. O objetivo era mudar a imagem de Lula de um político sério e "sem graça" para alguém dinâmico, acessível e divertido.
Ele destacou o lado humano de Lula — o líder carismático que havia conquistado ganhos reais para o Brasil — ao mesmo tempo em que projetava essa imagem positiva para o futuro.
A campanha também precisava alcançar gerações mais jovens que não haviam vivido o período anterior de Lula na presidência. O foco estava em mostrar o quanto ele havia feito pelo país e por seu povo. O que se destacou foi como as reações ao Lulaverso foram diferentes das de campanhas políticas típicas — levando a equipe a priorizar métricas de engajamento e análise qualitativa para compreender melhor seu impacto.
"O Lulaverso nos permitiu nos conectar emocionalmente com aqueles que viam Lula como mais do que apenas um político. Nós o humanizamos, o tornamos acessível e fizemos as pessoas sentirem que faziam parte de algo maior do que apenas uma campanha política."
Bolsoflix — um hatedom construído em torno de Bolsonaro — adotou a abordagem oposta. Em vez de inspirar apoio, o objetivo era canalizar a raiva já existente ao destacar os aspectos mais controversos de seu governo. Enquanto o Lulaverso buscava construir amor por Lula, o Bolsoflix foi concebido para afastar as pessoas de Bolsonaro.
Construir fandoms ou hatedoms não é fácil, mas hatedoms frequentemente já vêm com mais coesão embutida. As pessoas tendem a estar mais inclinadas a expressar desprezo por políticos do que admiração. Ambas as campanhas se apoiaram em líderes de opinião e veículos de mídia, ao mesmo tempo em que alimentavam o engajamento por meio de grupos de WhatsApp e redes sociais para gerar impulso viral.
"Com o Bolsoflix, evitamos usar medo excessivo ou abstrato. Nós nos concentramos em mostrar os fracassos tangíveis de Bolsonaro, mas os misturamos com humor e sátira. O deboche foi mais eficaz do que o medo porque as pessoas se conectaram melhor com a crítica sem se sentirem sobrecarregadas."
Tailândia: Partido Move Forward
De fãs a campeões políticos
Antes das eleições gerais tailandesas de 2023, o Partido Move Forward (MFP) construiu um dos fandoms políticos mais engajados da história recente, transformando apoiadores de admiradores passivos em agentes políticos ativos. Esse fandom, conhecido como Dom Som (um trocadilho com "fandom" e a cor laranja do partido), surgiu tanto online quanto offline, moldando significativamente a campanha e a trajetória política do MFP.
No centro desse fandom estava o líder do partido, Pita Limjaroenrat, que construiu um vínculo emocional com o público ao se apresentar como um "herói comum". Ele misturou cultura pop com política, transformando sua moda, gosto musical e vida pessoal em parte da narrativa da campanha. A marca pessoal de Pita lançou as bases para um fandom que depois cresceu em torno da identidade mais ampla do MFP. Ele compartilhou momentos íntimos com sua filha em plataformas como o Instagram, reforçando um "status de celebridade" que funcionou com os eleitores jovens. Essa abordagem transformou seguidores casuais em fãs leais, emocionalmente investidos em seu sucesso.
Embora Pita tenha sido o rosto inicial de Dom Som, a verdadeira faísca veio da luta do movimento contra o establishment político. Os esforços do governo para bloquear o MFP — banindo seu antecessor, o Future Forward, e desqualificando Pita para se tornar primeiro-ministro — transformaram o partido em um símbolo de resistência e esperança.
A estratégia inclusiva do MFP aprofundou o engajamento ao convidar membros a cocriar conteúdo e moldar políticas por meio de iniciativas como o Think Forward Center. O partido também lançou líderes de protesto como candidatos, misturando ativismo com política institucional. Essa abordagem ecoou narrativas da cultura pop, retratando o MFP como o azarão enfrentando poderes entrincheirados — como os heróis de Harry Potter ou Jogos Vorazes.
De forma crucial, Dom Som moldou ativamente as decisões do partido. Quando o partido buscou uma coalizão com Korn Chatikavanij, um político ligado a golpes militares do passado, houve uma reação pública imediata. A hashtag viral #มีกรณ์ไม่มีกู ("Se você tem Korn, não tem a mim") forçou o MFP a abandonar a aliança. Esse momento ressaltou o poder do fandom do MFP não apenas como base de apoio, mas como uma força que responsabilizava o partido — um contraste marcante com a lealdade política tradicional enraizada em sistemas de clientelismo.
O fandom também dominou estratégias digitais, especialmente no TikTok, onde cabos eleitorais orgânicos criavam e compartilhavam conteúdo voluntariamente, de memes a vídeos virais. Plataformas como @Thailanddebate editavam momentos-chave de debates, enquadrando representantes do MFP como vitoriosos. Esse ativismo digital de base ajudou o MFP a dominar as narrativas online e a se conectar com públicos mais jovens que, de outra forma, poderiam estar afastados da política.
'Um fator-chave na força do fandom foi a capacidade do MFP de ouvir as preocupações do público e integrá-las à visão de sua campanha, dominar o compromisso para unir grupos diversos e usar o humor para atravessar o ruído político, aliviar a tensão e "rir até a vitória". Esses elementos transformaram o engajamento político em um movimento cultural.'
Saiba mais
Recursos do D-Hub
- D-Hub. 2024. "Big Challenge Ahead." The Fight for Democracy Chronicles, Volume 10.
Outros recursos
- BolsoFlix. 2021. "Assista com sua família: filmes e séries anti-Bolsonaro." YouTube
- https://bolsoflix.com. Página web
- Brasil 247. 2022. "Lula lança campanha digital nas redes sociais com memes e conteúdo para jovens."
- Colombier, Alexandra. 2023. "Como a estratégia de fandom do Partido Move Forward da Tailândia moldou as eleições gerais de 2023." ISEAS Publishing
- Dean, Jonathan. 2018. "Politizando o fandom."
- Lulaverso. @lulaversoficial. Conta no Instagram
- Vizcaíno-Verdú, Arantxa & Paloma Contreras-Pulido. 2025. "Hatedom multiplataforma."

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